Você está aqui:Início»Blog»MÉDICOS EM CRISE: DINHEIRO OU VALORES MAIS ELEVADOS?

MÉDICOS EM CRISE: DINHEIRO OU VALORES MAIS ELEVADOS?

Avalie este item
(4 votes)

(CFM e o "BURNOUT": acertando no diagnóstico..errando na interpretação)
Márcio Amaral, vice-diretor IPUB
............

..................
O Jornal do CFM (março/17) apresentou alguns dados que confirmam a grave crise de valores por que passa a MEDICINA no Brasil e no mundo ocidental, em geral. Dizer, por ex: "pesquisas mostram que 45,8% dos médicos relataram sintomas da síndrome ('BURNOUT')..." sem citar qualquer fonte ou mesmo lugar onde foi colhido o dado, acho de uma fraqueza inaceitável. Teria sido pesquisa encomendada ao IBOPE ou coisa parecida? Já vi conclusões precipitadas, tiradas pela ABP em relação à psiquiatria infantil, baseadas em pesquisas do gênero. Não se diagnostica coletivamente uma condição eminentemente CLÍNICA (derivada de "clinos", leito) e, por isso mesmo, cobrando abordagem INDIVIDUAL. Apesar do aparente exagero---contaminado por algum modismo e perpassado por sensacionalismo---parece existir ali uma verdade muito importante. Aquilo que podemos suspeitar (mas ainda carece de comprovação) é do surgimento de uma quase "EPIDEMIA" daquela condição. Como, entretanto, não há termos de comparação (série histórica, essenciais na epidemiologia), há um pioneirismo associado e a linha de investigação é promissora. Mas há que refinar a LINGUAGEM. Todo esse texto será baseado em dados empíricos e impressões que compartilho com a publicação: HÁ, SIM, UMA GRAVE CRISE DE VALORES NA MEDICINA BRASILEIRA, associada a múltiplos casos de graves disfunções e até doenças. Daí a falar em "burnout" generalizado, vai uma distância.
..................
DE MÉDICOS, ESPERA-SE MAIS DO QUE O SENSO COMUM
................
O grande risco, nesse tipo de situação, é ficar prisioneiro ao senso comum, o que leva a conclusões precipitadas, muito parciais e...repetitivas. Talvez por isso mesmo, a publicação privilegiou FATOS CONCRETOS (salário, cansaço, deslocamento, etc...) em detrimento dos SUBJETIVOS, muito mais importantes, na minha opinião, para esses casos, além de ESSENCIAIS para o diagnóstico. Até porque, se fossem aqueles os aspectos mais importantes, diria que a imensa maioria dos trabalhadores brasileiros teria muito mais razões para sofrer "burnout" do que os médicos. Afinal: têm salários bem mais baixos; exercem atividades fisicamente muito mais cansativas e se deslocam em ônibus e trens superlotados e sem qualquer conforto e sequer RESPEITO por parte do poder público. Então, e antes de tudo: há que ir "...devagar com o andor..." e, principalmente, fazer uma reflexão muito mais ampla e profunda no entendimento dessa crise por que estamos passando. Uma coisa eu já posso louvar: essa preocupação representa uma mudança importante, pois nossos jornais vinham se transformando em uma quase "REVISTA CARAS", como se vivêssemos no melhor dos mundos. E como exaltam "grandes vitórias e/ou avanços" na conquista de direitos, etc.! Sempre deixando de lado os outros profissionais de saúde ou os tratando como se fossem a grande ameaça ao "poder médico".
.....................
E O "BURNOUT"...O QUE SERIA?
...................
O maior erro que se comete na aplicação desse novo conceito é a sua associação direta e fundamental com o ESGOTAMENTO ou cansaço físico ou ao ESTRESSE. DEFINITIVAMENTE, trata-se de um enorme amesquinhamento do conceito! São tantos os relatos---especialmente no enfrentamento e assistência a populações durante catástrofes---de pessoas esgotadas fisicamente, mas extremamente felizes com sua própria intervenção! Convençamo-nos de uma vez por todas: o que está em jogo são VALORES muito mais elevados do que aqueles que se podem medir em cifras ou minutos. É SEMPRE a confirmação da nossa IMPORTÂNCIA SOCIAL que nos alimenta espiritualmente (por que não dizer?). E é essa aura---que tradicionalmente envolvia a atividade MÉDICA---que está se esgarçando e rompendo.
................................
CONCEITUANDO "BURNOUT": é condição ligada especificamente ao trabalho; implicando pessoas que praticamente nele depositaram suas maiores expectativas de vida (até por dificuldades pessoais em outras áreas); pessoas essas que, mais ou menos subitamente, sofreram uma GRANDE DECEPÇÃO naquele mesmo trabalho ou atividade. Os casos mais típicos que examinei foram de gerentes de banco que, depois de assaltos nos quais se viram obrigados a colaborar, foram tratados como cúmplices e afastados do trabalho. Houve dúvidas quanto à possibilidade de um TEPT* associado, mas o absoluto desencanto e o CINISMO com que começaram a tratar tudo o que antes lhes interessava, além da falta de outras manifestações típicas do TEPT, afastaram a hipótese.
..............
SIM! Temos perdido muito da confiança social historicamente em nós depositada. Muito mais importante do que o cansaço físico na caracterização do "burnout" é o ABATIMENTO MORAL; em seus dois sentidos, diga-se de passagem: 1- individual, no sentido dos valores que nos sustentam e também à nossa ÉTICA pessoal; 2- mas também no sentido de O MORAL: o respeito e a crença naqueles que estão ao nosso lado (comumente associado ao "moral das tropas"), implicando confiança nos pares. Por isso, a presença do CINISMO é tão importante (FUNDAMENTAL mesmo) para o diagnóstico. Assim, afirmo: se estamos sofrendo mesmo, então ainda temos uma chance; muito pior é o CINISMO, uma espécie de "penúltima estação". . O "burnout" (queima total), propriamente dito, só se configura plenamente DEPOIS da "combustão plena" da energia vital que é sempre associada ao OUTRO, e se aprofunda com a perda da nossa importância nas suas vidas: um "colapso de valores".
..................
Talvez estejamos "somente" em um "Pré- Burnout"". Por isso, frases como "...reduzir a percepção de esgotamento que atinge médicos de todas as gerações" (Editorial) estão totalmente desviadas de foco. Como assim REDUZIR? Há que aumentar essa APERCEPÇÃO. Essa parece até uma receita para CINISMO, situação da qual não costuma haver volta. É esse mal estar (do qual não devemos fugir, mas enfrentar) que pode nos apontar caminhos: SEMPRE voltados a uma maior inserção na vida social; como cidadãos e envolvidos com os interesses SOCIAIS. Nosso vício de SUPERIORIDADE e sentimento de ELITE é que nos faz voltar as costas para as outras profissões da área da saúde. No mesmo número daquele jornal, nosso Presidente, ao final de um belo artigo de perfil muito humanista cai no mesmo vício "...o médico não é apenas um técnico, mas um cuidador de homens e sua comunidade...". Eis mentalidade de um pároco ou um pastor; aquela que sempre apequena e infantiliza pessoas. CUIDADOR! Seriam, os demais, um tanto dementes a ponto de precisarem de "cuidadores"?
...................
DE QUE LADO TEMOS ESTADO NAS LUTAS SOCIAIS?
.......................
Quantas têm sido as vezes em que me envergonhei diante do noticiário por conta de ações de grupos de médicos, mas principalmente de estudantes, o que é ainda pior e indicador de um problema sério com a profissão como um todo. Muito significativamente, debocharam de 3 grupos sociais habitualmente vistos como "mais fracos": 1- As mulheres, quando um grupo de estudantes, vestidos a caráter e tendo um estetoscópio ao pescoço, imitaram o órgão sexual feminino com gestos. Nunca consegui sequer entender que mensagem estavam enviando; 2- Os negros, quando, em "trote" de calouros , pintaram-se de preto; 3- (e o pior) Dos enfermeiros: quando uma turma de formandos passeou por uma cidade debochando deles com uma "canção" (posso até imaginar sua qualidade**) dizendo "Olhem, formandos de enfermagem/Nós somos os filhos que os seus pais queriam ter...". Não posso negar meus cacoetes profissionais, e quando me deparo com esse tipo de coisa sempre inverto os sinais tentando compreender os motivos mais profundos que podem levar pessoa a esse tipo de coisa. Quando o faço, encontro, em vez de orgulho, INVEJA. Sim, há uma crise EXISTENCIAL grave entre nossos estudantes. QUEM SABE NÃO SÃO ELES QUE ESTÃO INVEJANDO os demais profs de saúde?
....................
SUICÍDIOS ENTRE MÉDICOS E OUTRAS COISAS MAIS
.................
E então vieram os dados mais candentes (ver Jornal CFM, set 2016): o médicos se suicidariam até 5X mais do que a pop (dado um pouco exagerado, pois não houve correção para faixa etária); os estudantes de medicina se suicidam mais do que os de outras profs (especialmente aqueles que tinham muito bom desempenho acadêmico-CR); cerca de 400 médicos se suicidam nos EUA anualmente. Só um dado curioso para associar aos seus deboches para com os enfermeiros: a UFRJ (através do IPUB e outros setores) está investindo em um esforço de atuação nas crises pessoais mais sérias ocorridas entre seus estudantes. Depois de um ano de atuação, curiosamente, mas não autorizando qualquer conclusão, os da medicina eram o grupo mais representado entre os que procuraram os serviços e não havia um de enfermagem sequer. Há de se notar: o serviço é destinado PRINCIPALMENTE aos estudantes mais carentes e a medicina é aquela que tem menor proporção deles nessa situação. Gosto muito de repetir para meus alunos: O PREÇO QUE PAGAMOS POR ESSA ESCOLHA É MUITO ELEVADO. O pior que podemos fazer é nos isolar e refugiar em um NARCISISMO tolo.
...................
*Transtorno de Estresse Pós Traumático.
**Nada disso é inédito. Minha turma mesmo "cantava" um conjunto de sons com ritmo grosseiro (chamar canção seria exagero): "...que a maioral é a medicina/...Nacional de Medicina/É escola papa fina/Não é escola prá menina...". As pessoas se deram conta de que esse último verso soava um tanto esquisito e acrescentaram um grito final: "..FEIA" . Ficou pior ainda: sempre sob o signo da EXCLUSÃO. Como gosto e conheço música e poesia, calava-me nesses momentos.

Comentarios (0)add
Voce precisa estar logado para postar um comentario. Por favor registre-se se caso nao tenha uma conta

busy

banner pdf apostila MA

logo_acesso

logo ouvidoria ufrj

Buscar no Blog

Banner carta ipub

Calendário Blog

« Julho 2017 »
Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
          1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
31            

Parceiros IPUB