Arte e Cultura

A “TOMADA” DA ROCINHA-II

(O que Devemos à Campanha no Haiti)

Desde que o Exército assumiu o controle das operações que culminaram na entrada e permanência do Estado no morro do “Alemão”, nunca mais se verificaram as verdadeiras chacinas, resultantes de “invasões” irresponsáveis, comandadas pelo BOPE. Que essa “Ordem da Caveira” continua a mesma, atesta-o a desastrada e espetaculosa operação na Z. Oeste. A morte do cinegrafista foi tratada, por quase todos, apenas como “Um Incidente em Antares“. Tudo se deu como se, por trás dos muros e paredes (mostrados em vídeo) não estivessem batendo, naquele mesmo momento e apressadamente, muitos corações. Antares não será palco de nenhum grande evento, não tem vista para o mar ou recebe turistas. Como o Gov. do Estado só prioriza o que pode ser vitrine: que todos os vidros de Antares continuem sendo quebrados e que sirva apenas de cenário para cenas de filmes de ação!

O secretário de segurança do RJ desfruta de merecido respeito no RJ. Seu nome entrou para a nossa história. Em duas oportunidades, entretanto, os responsáveis por operações nebulosas na PCivil invocaram o seu testemunho, como se ele fosse uma espécie de seu “fiador”. A credibilidade não aceita ambiguidades. Também as operações de entrada e ocupação (sem disparar um tiro), têm sido a ele creditadas. Esquecemos, porém, que, até o “Alemão”, os métodos de ocupação tinham sido baseados principalmente na confrontação. A entrada na Vila Cruzeiro¹, dias antes, só não degenerou em confrontação porque os traficantes se deslocaram para o “Alemão”. FOI A TOMADA DO COMANDO DAS OPERAÇÕES PELO EXÉRCITO BRASILEIRO QUE IMPÔS UMA MUDANÇA DE MENTALIDADE. Em abril/2007, e no mesmo “Alemão”, uma incursão desastrosa do BOPE deixou 19 mortos, dos quais apenas 6 tinham passagem pela polícia (ver OGlobo). Nessa época, o discurso das autoridades estaduais priorizava a guerra e o confronto, tratando as mortes de inocentes apenas como “acidentes inevitáveis”. O argumento de que a ação foi uma resposta (JMBeltrame, R.Viva, 27/11) à morte de inocentes, depois que traficantes atearam fogo a um ônibus, somente reforça a crença de que houve apenas vingança. As piores vítimas, como sempre, foram os inocentes. Até hoje, estamos respondendo a organismos internacionais por aquelas mortes e pelos corpos jogados em latas de lixo e carrinhos de mercado. A memória pública não é muito duradoura, especialmente quando os jornais² não desempenham bem o seu papel.

Que o espírito de confrontação não morreu de todo, atestam-no as declarações do comandante das operações na Rocinha que envolviam a Marinha. Disse ele para as câmeras, com uma animação muito perigosa nessas situações: “Estamos entrando em um campo de guerra e preparados para qualquer situação de enfrentamento, etc.“. Campo de Guerra!!! Espera-se que os profissionais da área saibam do que estão falando. Banalizar a palavra GUERRA, nessas situações, é inaceitável. Não havia guerra alguma, nem sua possibilidade! Não são: o tipo de armamento, nem o número de mortos que caracterizam uma guerra. Quando usamos essa palavra, estamos dizendo que os direitos civis foram suspensos e que vigem as leis da guerra, com suas cortes marciais, fuzilamentos sumários, etc. O que estava em jogo ali era apenas a segurança pública. Mais responsabilidade com as palavras!!!

Hoje, os órgãos internacionais envolvidos com a promoção dos Direitos Humanos estão muito preocupados com o que vem se passando na Z. Oeste e as milícias que por lá estão mandando. Consideram isso mais perigoso e preocupante até do que as quadrilhas de marginais desarticuladas, uma vez que controlam diversas atividades imprescindíveis em uma cidade: gás, luz, transporte e outros. Esse é o nosso embrião da Máfia, uma vez que as milícias têm “representantes” no parlamento, no Governo do Estado, nas diversas polícias…Quem sabe até no poder judiciário?!

De qualquer maneira, esperamos que tudo corra muito bem na nova APP e que se respeitem as manifestações culturais dos lugares “tomados”. É bom não esquecer, ainda, de que o samba também já foi proibido e perseguido. Talvez o “Funk” seja a expressão cultural do “Tempo das Armas”. Eu também “prefiro ouvir os versos de um samba/Do que escutar som de tiros“, mas a vida andou levando “outros sons” e outras práticas aos olhos e ouvidos que cresceram e se apuraram nos morros. Eles precisavam encontrar sua expressão estética. Quem sabe se o “novo líder“, que está nascendo “no morro do Pau da Bandeira” (“Zé do Caroço”, Seu Jorge), não é exatamente o “filho” desse diálogo entre o Samba e o Funk?

Com relação ao Haiti, quando seguiu nossa missão de paz, ouvimos juízos mesquinhos do tipo: “Tem tanta coisa prá fazer por aqui, prá que vão prá lá; o Haiti é aqui…etc.”. Exercitar a generosidade faz tanto bem a todo mundo! Não temos notícia de uma missão de paz tão bem sucedida quanto a nossa no Haiti. Até o terremoto, a única morte entre os seus membros fora a do seu comandante, e por suicídio. Os americanos, é claro, aproveitaram esse acontecimento para falar de “fraqueza” e “despreparo”. Se o tal “preparo” implica transformação em ROBOCOPS—não reconhecendo nos civis seus semelhantes—não somos (nem haveremos de ser) os melhores. Se as mortes de civis devem ser consideradas meras “casualties“, que chamem outros povos para a função! Todas as mortes de civis provocadas pelas incursões de nossos soldados, não somam as decorrentes de uma só incursão americana no Iraque, Afeganistão ou Paquistão. Há naquele suicídio alguma grandeza e beleza ainda não bem compreendidas e alcançadas.

Quando dos protestos populares, contra o segundo turno da eleição presidencial e pela aceitação dos 49,…% de votos alcançados por Renée Preval, vimos a ação de alguns soldados brasileiros contra uma barricada popular de pneus em chamas. Nosso oficial gritava para o povo: “ALÊ…! ALÊ…!” e nada funcionava. De repente, ele gritou bem alto: “ALÊ…! PORRA!. O efeito pareceu enorme. Nunca um palavrão foi tão bem aplicado. Quanta verdade havia ali! Eles também fazem parte da cultura brasileira. Vimos também um soldado, provavelmente centro-americano, chorar com a arma em riste, enquanto era abordado e cercado pela gente do povo que agitava ramos por sobre sua cabeça. Seu drama era enorme! Tudo poderia ter degenerado ali. Aquele choro, certamente, seria interpretado pelos ROBOCOPs como fraqueza. BENDITA ESSA CAPACIDADE DE SE PREOCUPAR COM OS OUTROS E DE SUPORTAR UMA DÚVIDA E UM DRAMA! BENDITA “FRAQUEZA”! De alguma forma, somos todos herdeiros de um outro militar que, em sua aproximação aos índios brasileiros, dizia: “Morrer, se preciso. Matar, nunca!“. Marechal Rondon

¹Quando a incursão na V. Cruzeiro se iniciou, ouvimos (na TV) o S. de Segurança elogiar a Marinha e criticar o Exército por não emprestar seus equipamentos “que estavam ali perto e talvez nunca fossem usados”. No dia seguinte, o I Exército assumiu o controle da operação e, desde então, tudo mudou.

²Em seu afã de desempenhar o papel de Diário “quase” Ofcial do Gov do RJ, OGlobo inventou uma nova categoria de informação: a “contranotícia” (da mesma maneira que existem os contracheques, o contraponto, etc.). Em vez de noticiar o rebaixamento para o nível de menor confiabilidade das informações quanto às taxas de homicídios do RIO (pelo Anuário de Segurança Pública), noticiou apenas a contestação do Governo: “RIO CONTESTA FALTA DE CONFIABILIDADE…” (24/11). Tinham passado a omitir as mortes por homicídios, quando ocorridas em hospitais. E por falar em CONFIABILIDADE…! Lá se foi a do Gov. Estadual, mas também a do Jornal! Dizem que Beltrame quer processar o CIENTISTA do IPEA que demonstrou, com dados, a manipulação da sua Secretaria. OH! GALILEU GALILEI! Ainda se tentam prender os seus herdeiros intelectuais! BELTRAME! EVITE ESSE VEXAME! Quanto custou aos cofres do RJ o encarte “RJ”, de OGlobo, domingo 27/11? Quem é a “Nova Imprensa Oficial” do RJ?

Márcio Amaral, vice-diretor IPUB-UFRJ, Prof. Adjunto UFRJ e UFF

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