Arte e Cultura

A “TOMADA” DA ROCINHA: UMA “IMPRENSA DE ANIMAÇÃO”?!

(“Muito mais do que o Papel de um Jornal!”?)

Quem pode não se alegrar com o fato de o Estado brasileiro passar a garantir o direito de ir e vir—de membros dos seus órgãos e outros cidadãos—a um pedaço do território do país? Nesse tema tão espinhoso, aliás, há que se ter muito cuidado com as expressões utilizadas. Palavras como INVASÃO ou TOMADA parecem se referir a território ocupado, ou que não era brasileiro. Tudo ali era já brasileiro…muito brasileiro! Que sejam preservadas as suas manifestações culturais! Um dia, o samba cantou afirmativamente: “A voz do morro sou eu mesmo sim senhor!“. Agora ele faz um dueto com o “Funk”. De qualquer maneira: “Confesso que estou contente também” (Lunik 9, G. Gil).

Algumas ocorrências que cercaram aquela entrada do Estado na Rocinha, entretanto, foram tão graves; deixaram à mostra tantas “ligações perigosas” entre a Polícia Civil e o crime; envolveram advogados tão próximos aos governantes do Estado, que se tudo isso não for esclarecido (afastados e punidos os culpados), o trabalho não se terá complementado. Só para que “refresquemos” a memória: no dia 9/11, cerca de 18:00, um comboio de 4 carros foi interceptado pela PF (em operação de muita precisão), logo após ter passado por um “bloqueio” da PM em uma das saídas da Rocinha. Distribuídos nos carros, encontraram 4 subchefes do tráfico, 5 policiais civis e 2 ex-PMs. Estavam fazendo a “escolta” dos traficantes! Segundo informações obtidas pela PF, aquele “procedimento” custaria 2 milhões aos traficantes (valor informado pelo Globo). Juntando-s e esse dado ao fato de terem passado incólumes pelo “bloqueio”, é natural a suspeita de que, se havia aqueles valores, eles não seriam distribuídos somente entre os que faziam diretamente a “escolta”.

Cerca de 5 hs depois, uma Patrulha do BChq da PM interceptou o carro onde se encontrava o chefão máximo do tráfico na mesma região. Com ele, 3 advogados, dois deles muito próximos ao P. Guanabara, sendo que um deles representara até o governador em solenidade recente¹. Depois de várias tentativas infrutíferas de subornar os oficiais PMs, os causídicos chamaram policais civis de Maricá que interceptaram os veículos da PM, “fechando-os” na Lagoa. Isso teria obrigado os PMs até a furar os pneus do carro, de maneira a impedir o seu desvio para “Deus sabe onde”. Por fim, o chefe do tráfico foi levado à PF, conforme intenção inicial dos PMs. Nos últimos anos, as autoridades fizeram as “tomadas” do “Alemão”, da “Rocinha” e outros. Quando, finalmente, procederão à “tomada” da Polícia Civil?

Como tem a imprensa de nosso Estado tratado esses fatos? Lançando mão dos mais variados recursos para os esconder. A leitura de várias páginas dedicadas ao assunto em OGlobo (15/11), faria pensar que a Rocinha estava se transformando em um “Parque Temático” e que as relações entre as diversas instâncias de segurança, envolvidas no acontecimento, eram um “mar de rosas“¹. Somente os mais insistentes, daqueles que lêm até editorial, encontraram, naquele número, referências aos fatos e cobranças de sua investigação (no Editorial)². Enquanto isso, e fazendo um contraponto: as agruras do desastrado (para dizer o mínimo) Min. Luppi, com suas viagens em aviõezinhos fretados por ONGs, ao contrário, mereceram um enorme destaque em manchetes e matérias. Por que essa assimetria da Rede Globo para com o Gov. Federal e o Governo do Estado? Por que somente em relaçã o ao primeiro exerce verdadeiramente seu papel de imprensa e jornal³?

A resposta/confissão está no “slogan” criado por eles mesmos: quando afirmam exercer “Muito mais do que o papel de um jornal“, reconhecem que sua primeira vítima foi o espírito da imprensa no próprio jornal. A boa imprensa é tão nobre e elevada, que qualquer “acréscimo” à sua função só pode resultar em seu sacrifício em “altares” estranhos à própria atividade. Esse “mais além”, por consequência, só pode ser um projeto de poder. Tudo, então, passa a ter sentido: sendo o Gov. do Estado submisso ao projeto de poder da Rede, tratam-no como aliado (criticando-o, de vez em quando, só para manter as aparências); como não têm muita influência sobre o Gov. Federal—visto como um obstáculo ao exercício daquele mesmo projeto de poder—voltam suas principais “baterias” contra ele. Elementar! Propriamente dito, uma vez que a “Vontade de Poder” é o “elemento” primordial de tod os os seres vivos.

Dirão alguns: “AH!…Mas esse é apenas o tão conhecido Quarto Poder“! Não! O caso em questão é muito mais do que isso! O tal “quarto poder” foi atribuído à imprensa apenas pelo bom exercício de seu papel e condicionado ao bem informar e aprofundar as discussões, nunca ao esconder fatos e manipular matérias. Sendo a Globo, então, um poder, diríamos que é o mais anti-democrático dentre todos, até mesmo do que o exercido pelos diversos governos, desde o fim do regime militar. Todos aqueles governos aceitaram e lidaram, bem ou mal, com críticas de membros do próprio governo dirigidas a outras instâncias dos mesmos governos. Na Globo, ao contrário, há um código não escrito, determinando que ninguém pode sequer criticar outros membros da mesma rede. Desafiamos que alguém encontre, em algum órgão da rede, uma crítica sequer, a algum papel dúbio ou prejudicial que alguém da própria Rede Globo tenha exercido em algum momento. Desafiamos, ainda, que os “muito nacionalistas” escrevam, também para o “Rock in Rio”: “É o cacete!“. Parece tão fácil, não? Mas não é. Conhecem bem a “Voz do Dono” e sabem o quanto precisam da “rede” para sua própria sobrevivência: não só profissional, mas para pagar suas próprias contas. É o código: que ninguém coma dos frutos de uma certa árvore do “Paraíso”. Caso contrário, a espada haverá de lhes apontar a porta!

Há, sem dúvida, pelo menos uma dezena de intelectuais muito respeitáveis naquele jornal (da pág 5 em diante, pelo menos). Alguns desses conseguem até demonstrar uma independência considerável. Todos, entretanto, sofrem de uma limitação na abrangência de sua crítica: não podem criticar a própria Rede em que se enredaram. Alguns criaram até expressões como: “Tem culpa eu?!“, para responder a todos os ataques dirigidos à imprensa. Não!! Verdadeiramente, quando a imprensa é apenas IMPRENSA, não tem mesmo qualquer culpa nos acontecimentos. Quando, porém, desenvolve um projeto de poder, precisa mesmo de muita crítica. Aliás, esse PODER, além de “não ter culpa”, não tem qualquer RESPONSABILIDADE, no sentido original da palavra: aquele que responde por. Eis o poder ideal: se der certo, partilha o butim; se der errado, passa rapidamente para o outro lado, e atribui toda a culpa a algum governo. Além disso, o poder de sedução da “mídia”é de tal ordem, que quase todos brigam por algum espaço nela. Nem as melhores Universidades do país (as públicas) estão livres disso. Quantos, dentre nós, têm se deixado levar por campanhas sensacionalistas, especialmente no terreno do combate às drogas, repetindo afirmações sem qualquer fundamento, só para aparecer na mídia!!
(Continua)

¹Vimos fotos, e outros documentos, divulgados na internet. Se essas referências não são fiéis aos fatos, a responsabilidade maior é a da imprensa que parece ter feito questão de não investigar ou informar sobre o acontecido.
²A história do cônsul congolês é apenas a nota mais rocambolesca e tem servido também para desviar o interesse do principal. Na morte da Juíza, tentaram até ” fulanizar” o acontecimento, associando-o a uma desavença pessoal de mais de 20 anos.
³Na matéria: “Um Estrategista na Linha de Frente” (21/11), o Jornal conseguiu se superar. “Historiando” os fatos, disse que tudo fora previsto e esteve todo o tempo sob controle de um oficial da PM, além de repres. da PF, PRF, PCivil e CET-RIO. Nem o “Pravda” faria melhor.

Márcio Amaral, vice-diretor IPUB-UFRJ, Prof. Adjunto UFRJ e UFF

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