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A “ELITE DO ATRASO”: MISTIFICANDO FAMÍLIA, EDUCAÇÃO FORMAL…

(Se Jessé atentasse um pouco para o que se passa na Coreia do Sul*…)

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“Escritório de Hitler no ‘Bunker’ sujo onde se suicidou. Reparem no quadro de Frederico, ‘O Grande’, seu ídolo e responsável pela implantação do ‘sistema educacional’ prussiano. Há uma linha direta entre os dois, mas também entre as escolas prussianas e os c. de concentração.

“Os seres humanos são CONSTRUÍDOS por influência das instituições…Pensemos na família, na escola ou no mercado de trabalho. Disposições fundamentais para o comportamento, como a disciplina, o autocontrole, o pensamento prospectivo,são ensinadas por meio de prêmios e castigos institucionais, não necessariamente físicos…”. (“A ELITE DO ATRASO” pág. 39)
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Esse talvez seja o pior trecho de um livro que tem grande valor. Sugere fortemente que Jessé “voltou germanizado” … da Alemanha, é claro. Mais do que isso: “Prussianizado” e levando muito a sério a tese de Aristóteles quanto às pessoas serem uma “tábula rasa” na qual a experiência (a partir dos “educadores”) vai como que “escrever” e “construir” uma personalidade, caráter, etc.. Foi esse tipo de formulação que transformou as escolas alemães em “menageries” (locais de adestramento de animais) segundo NIETZSCHE e gerou os reformatórios com seus castigos corporais terríveis**. Além disso, o que pode tê-lo levado a escrever aquele rabicho de frase tão comprometedor sobre os castigos: “não necessariamente corporais”? Como assim? Os castigos corporais são IMPENSÁVEIS nas instituições (escolas e locais de trabalho) e totalmente contraindicados e coibidos nas famílias. Essa fala banaliza algo que se deve, em PRINCÍPIO, repudiar. Alguém precisa ajudar o autor nessas escorregadas verbais tão comprometedoras! Ademais, sempre fica a pergunta: quem vai educar os educadores? A partir de que critérios? Estaria ele considerando a ESCOLA uma instituição modelar? Para derrubar a tal “tábula rasa”, nada melhor do que um outro alemão que aprecio: Pois se até para fazer uma escultura um escultor precisa estudar a pedras de mármore para ver qual se presta ao objetivo! O que dizer de seres humanos?. LEIBNIZ, “Novos Ensaios…”
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LOUVANDO E MISTIFICANDO INSTITUIÇÕES BURGUESAS!………………………
Em sua reforço do papel das escolas e das famílias na “CONSTRUÇÃO” dos indivíduos, Jessé parece não se dar conta de que o resultado da sua formulação há de ser: tudo vai continuar da mesma forma (ou na mesma FÔRMA caso se mude apenas o sinal). Podemos aplicar até um SILOGISMO às suas ideias: 1– se as escolas e famílias são as mais importantes na “construção” dos indivíduos e se; 2– as escolas são controladas pelas elites e as pessoas mais pobres quase não constituem famílias (propriamente ditas, segundo afirmação em outros trechos do livro); 3-LOGO: tudo tende a continuar como está.
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Mas há uma conclusão ainda mais perigosa (na qual ele sequer parece ter pensado) dessa descrença na CULTURA libertária de um povo: a única maneira de mudar a situação seria tomar o controle daquelas instituições, impondo uma “nova diretriz”. E eis que, “por portas e travessas”, Jessé acabou se aproximando do discurso dos que defendem a “escola sem partido”. Afinal, os dois reforçam a PASSIVIDADE das pessoas em geral (fáceis de “moldar”) e das crianças em particular. Nada de bom pode resultar disso. Se os alemães têm por traço fundamental a OBEDIÊNCIA (Nietzsche em “AURORA”), especialmente ao ESTADO, o povo brasileiro tem características OPOSTAS nesse e em outros quesitos: está sempre desconfiando do ESTADO e das elites em geral. Aliás, se a gente simples de nosso povo fosse tão passiva quanto se pode concluir das teses de Jessé, LULA não teria mantido um percentual de antecipação de votos (e em pesquisas manipuladas pelos adversários!) de cerca de 30% por todo o tempo e em todos os cenários. Essa é, aliás, a fonte do desespero que está assolando a GLOBO e seus comparsas. Tenho a impressão de que nem G. Vargas e Pedro II sofreram campanhas tão terríveis.
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ESCOLA “VERSUS” CULTURA? QUE A CULTURA SE IMPONHA À ESCOLA
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O pensador que é referência para a CULTURA—essa coisa “misteriosa”, impalpável e, por isso mesmo, sem valor para Jessé—foi muito mais longe, pois chegou a ver a ESCOLA como um mal. Bem…que a ESCOLA alemã havia feito um grande mal ao seu povo (ao violentar sua CULTURA) é quase um consenso. Havia, segundo Nietzsche, que destruir toda a estrutura educacional alemã (simbolicamente) de maneira a resgatar seres humanos mais completos:
“É missão da juventude (‘primeira geração de matadores de dragões’) abalar até os alicerces as modernas concepções corrompidas de SAÚDE e CULTURA; erguendo uma bandeira de desprezo por esse amontoado rococó de ideias…(com isso) a juventude poderá parecer inculta, mas é um passo necessário para a cura da humanidade. A princípio, serão mais ignorantes que os homens “educados” do presente…Mas, no fim da cura, serão de novo seres humanos e não simples sombras da humanidade“. (NIETZSCHE: “O Uso e Abuso do estudo da História”, citado por Frederick Copleston em “NIETZSCHE-FILÓSOFO DA CULTURA”). Um outro pensador (muito apreciado por Nietzsche): M. de Montaigne (1533-96), já assinalara os perigos dos estudos que se faziam nas universidades francesas de seu tempo, gerando jovens “Feridos pelas Letras”: tinham saído de suas aldeias e cidades cheios de energia e esperança e retornavam balofos, pernósticos e vazios.
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*A GMídia não se cansa de elogiar o sistema educacional coreano que “atropelou” sua cultura, voltando-se totalmente para formação de mão de obra. Seu PIB cresceu e suas taxas de suicídio também, em proporções nunca vistas em 4 décadas. Até 1980 girava em torno de 6-8/cem mil/ano; hoje está nos estratosféricos 36/cem mil/ano. Há vários casos demonstrando o desastre representado pelos ataques à cultura, sempre associado à elevação marcante daquelas taxas: entre indígenas canadenses, dos EUA e até os nossos; Groenlândia, Guiana Inglesa e outros. É a CULTURA que gera a sensação de PERTENCIMENTO. Falar em uma “CULTURA GLOBAL” é uma aberração e corresponde à destruição de todas as culturas.
**Frederico-I criou, na Prússia (a partir de 1717, ano seguinte à morte de LEIBNIZ), 1700 escolas para ensino compulsório de todas as crianças. Sua ênfase era na obediência e aplicação: “…o açoite era de uso corrente. Um mestre escola contava que, em 51 anos de ensino, havia dado 124 mil chicotadas, 136.715 palmadas com a mão, 911.527 golpes com um pedaço de pau e mais 1 milhão de bofetões” (W. Durant “A ERA DE VOLTAIRE”). Há uma linha direta entre as escolas prussianas e os campos de concentração. Não por acaso criaram a expressão “Kadavergehorsam” (obediência cega): “seguindo ordens como se você fosse um corpo morto, sem vontade própria”

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Vice- Diretor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ
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