Arte e Cultura

P. FREIRE EM ESTOCOLMO: UMA HOMENAGEM TOCANTE!

(Quem disse que uma imagem vale mais do que 1000 palavras?)

Márcio Amaral

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“Pois bem…Diga isso sem palavras!*” (Millor debochando do dito)

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after-badetVendo a imagem (através de foto) dos 7 pensadores mais importantes das décadas de 1960/70, imortalizados em um bloco único pela escultora sueca Pye Engströn (1928-  ), e apesar da homenagem ao nosso grande educador, pensei: “Mas que escultura pesada e um tanto grosseira!”. Depois de algumas observações mais apuradas no local, entretanto, que nova dimensão tudo aquilo adquiriu! Sequer falei da minha impressão inicial à amiga (e parente de P. Freire) que me dera a informação. Mesmo assim, admirador que sou da sua obra e de sua personalidade e estando mais uma vez naquela bela cidade, não poderia deixar de ir ao local propriamente dito. Afinal, qualquer praça sueca, quase todas voltadas para as crianças, é interessante. E então… Que surpresa! Aquele bloco único é algo que desafia qualquer definição no que se refere à arte, e se alguém conseguir refazer os caminhos mentais da escultora até o resultado final, terá feito um bom e interessante trabalho de investigação.

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NOTA: o tema da escultura é: os pensadores mais influentes dos anos 1970. Assim, estão ali: Elise Ottesen, Paulo Freire, Sara Lindman, Mao Tse Tung, Ângela Davis, Georg Borgström e Pablo Neruda. A presença de Mao motivou muitos protestos entre os conservadores e a escultura quase foi removida quando a direita esteve no poder, há alguns anos. Mao está mesmo deslocado ali, mas seu “Livrinho Vermelho” atingiu alguns bilhões de pessoas e seria desonesta a sua não inclusão.

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Saindo do metrô (Tunnelbanna) e ainda à distância, pudemos ver alguns meninos pisando e saltando sobre as cabeças dos famosos personagens. Logo depois vieram as meninas. Chegando mais perto, percebemos que todo o monumento tinha a finalidade de SERVIR às pessoas em seu cotidiano: as imagens são feitas sob a forma de um enorme sofá separado em poltronas individualizadas para que as pessoas nelas sentem. E o mais interessante, até mesmo intrigante: fica exatamente na saída de uma das inúmeras casas de banho abertas a toda a gente pela Suécia afora. Seu nome é também muito sugestivo: “Efter Badet” ou simplesmente “DEPOIS DO BANHO”. Da mesma maneira que as crianças brincam por ali—provavelmente sem saber em que cabeças estão pisando—os adultos ali se sentam…depois do banho. Pelo visto, a escultura foi concebida para aquele local. Talvez, sem a intenção, essa destinação tenha garantido sua permanência, apesar dos conservadores não a quererem conservar.

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P. FREIRE SOB ATAQUE DOS GOLPISTAS…BRASILEIROS!

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Sofrer ataques cerrados por parte dos herdeiros intelectuais (ou anti intelectuais) daqueles que alguém mais confrontou (prática e teoricamente) no curso de sua própria vida é uma espécie de CONFIRMAÇÃO da importância de sua obra. E quando acompanhamos as “evoluções” golpistas com suas “escolas sem partidos”, damo-nos conta de quem nem K. Marx tem sido tão atacado como o pensador pernambucano. Sua obra é hoje uma grande e inexpugnável trincheira ideológica na defesa dos interesses da gente mais simples e explorada no mundo. E eu, muito modestamente, diria que, sem o saber, identifiquei o início dessa empreitada contra P. Freire ainda nos seus primórdios, em set de 2012, quando publiquei aqui (neste mesmo Blog) 3 textos: “EDUCAÇÃO, ENSINO… OU CABRESTO?”, respondendo a uma ataque cerrado a ele dirigido pelo cervejeiro LEMMAN/AMBEV e “educadores” na sua lista de pagamento (ver no link: http://www.ipub.ufrj.br/cultura/sem-categoria/educacao-ensino-ou-cabresto-i)

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Àquela época, os adversários do grande educador ainda se valiam de linguagem civilizada e, por isso mesmo, talvez mais perigosa. Como seus ataques não funcionaram, transformaram-no em “inimigo público”…, eles mesmo, os próprios inimigos públicos…. Em 28/8/12, a GNEWS (sempre ela) levou ao ar uma entrevista com um certo MARTIN CARNOY que, financiado pelo cervejeiro-LEMMAN, promoveu uma pesquisa com nossos profs (U. de Stanford) cujos resultados foram muito desabonadores para nossos educadores. Esses, porém e segundo o “pesquisador”, não deveriam ser inculpados por seu “fracasso” nos testes (que eles mesmos inventaram), pois ninguém (nenhum americano, é claro) “os teria ainda ensinado a ensinar”, por isso: “…é natural que o ensino não seja bom. Comparemos com a situação de um mecânico a quem eu entregasse o meu carro para consertar e ele fizesse tudo errado…depois soubéssemos que ele não tinha qualquer preparação. A culpa não era dele. É a mesma coisa!“. Só um americano compararia um professor a um mecânico de automóvel! Sem demérito aos mecânicos, há uma enorme diferença entre lidar com seres em busca de AUTONOMIA CRÍTICA e outros que só são “AUTO” no nome, pois totalmente dirigidos.

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P. Freire de mãos dadas com Elise Ottesen-Jensen, anarquista sueco-norueguesa, que fez da luta pelos direitos da mulher sua bandeira.
P. Freire de mãos dadas com Elise Ottesen-Jensen, anarquista sueco-norueguesa, que fez da luta pelos direitos da mulher sua bandeira.

E meio à entrevista e perguntado sobre P. Freire disse ele: ““Podem esquecer tudo ‘aquilo’ de P. Freire…um amigo. O que interessa é como ensinar”. Engraçadas foram as palavras “AQUILO” e “AMIGO”. Na série de 3 textos que escrevi a respeito, chocado com a audácia do CERVEJEIRO-LEMMAN em se dar o direito de julgar nossos profs (enviou 100 profs a STANFORD para que, na volta, “revolucionem o ensino brasileiro”), lembrei-me de uma crônica romana: “um grande pintor, durante exposição pública, escondeu-se para ouvir os comentários dos visitantes. Um sapateiro criticou as sandálias por ele pintadas. O pintor saiu do esconderijo, agradeceu e, no mesmo dia, sanou a impropriedade. No dia seguinte, o sapateiro voltou e disse que as sandálias agora estavam boas…mas as nuvens poderiam ter sido pintadas de outra forma. O pintor saltou de novo e gritou: Sapateiro! Não vá além das suas sandálias“! (“ne sutor ultra crepitam”). Sendo assim: “CERVEJEIRO, não vá além de suas cervejas” (e pare de usar dinheiro e espaço público).

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“LOUVANDO O QUE BEM MERECE…DEIXANDO O RUIM DE LADO”

(“LOUVAÇÃO”: Gil e T. Neto)

Voltando a P. Freire e a Estocolmo, para se chegar lá é bem fácil: pegar o metrô para Västertorpshallen. À sua saída é já possível divisar o monumento (diga-se de passagem, sem qualquer daquelas formalidades associadas aos monumentos). Depois da apreciação, sugiro a entrada no parque em torno da qual ela se encontra. Uma boa indicação é perguntar como chegar à estação seguinte do metrô, a pé, pois o parque fica entre as duas estações. Há diversas esculturas espalhadas por ele e bem posicionadas. Típico do parque—ele é conhecido por isso—são essas esculturas, além daquilo que é comum a todos os parques suecos: sua dedicação às crianças. Há ali também uma “Escola Aberta” que funciona todos os dias da semana acolhendo qualquer um que ali chegue.

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*Essa apologia das imagens atinge e fere a enorme capacidade humana de “produzir” suas próprias …IMAGENS, especialmente a partir das…PALAVRAS. Foi através da IMAGINAÇÃO, associando umas às outras, que se criaram os assim chamados MITOS DE FUNDAÇÃO marco na origem de cada CULTURA. Afinal, no início, era o Verbo. Assim, concluo o oposto àquela famosa sentença: as palavras até podem atingir seu objetivo sem as imagens, pois cada pessoa forma as suas; já as imagens, sem a contextualização que só as palavras podem dar, raramente ganham significado claro.

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