O Teatro Qorpo Santo, localizado no Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB), reabriu suas portas após um longo período de interdição devido a problemas de infraestrutura predial. A retomada deste espaço de criação, escuta e experimentação, que articula arte e cuidado, representa um marco na trajetória do Instituto, sendo sua reforma viabilizada por emenda parlamentar da Deputada Federal Jandira Feghali.
A reinauguração ocorreu entre os dias 6 e 9 de abril, em uma programação especial que celebrou os 25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Ao longo de quatro dias, o público participou de uma agenda diversa, com apresentações de teatro, música, cinema e poesia, além de mesas de debate dedicadas à reflexão sobre as conquistas, os desafios e as perspectivas da política de saúde mental no país.
A abertura do evento contou com a apresentação da esquete Monomania, do grupo Loucos por Teatro — formado por atores do Hospital Dia do IPUB — com direção de James Araújo. Inspirado em fragmentos da vida de José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo, o espetáculo propôs uma reflexão sobre liberdade, criação e ruptura de estigmas.
Na sequência, foi realizada a cerimônia de descerramento da placa comemorativa da reinauguração, seguida de mesa institucional com a participação do Diretor do IPUB, Professor Pedro Gabriel Delgado; do Vice-Diretor Marcelo Santos Cruz; da Coordenadora do Setor de Memória, Arte e Cultura, Raquel Fernandes; da Deputada Federal Jandira Feghali; e de Leonardo Santos representante da Coordenação de Preservação de Imóveis Tombados, do Escritório Técnico da Universidade (COPRIT/ETU/UFRJ).

Encerrando o primeiro dia, o bloco carnavalesco Tá Pirando, Pirado, Pirou! levou ao público seus sambas-enredo, com destaque para a homenagem a Qorpo Santo apresentada em 2024. A apresentação culminou em um cortejo pelo pátio do IPUB, acompanhado da alegoria do lendário Cavalo Marco, símbolo da luta por uma sociedade sem manicômios.



No segundo dia, teve início o Cine Debate — iniciativa de cineclube que passará a integrar a programação regular do Teatro. A sessão de estreia exibiu o documentário Meu Nome Não é Cracudo, realizado por trabalhadores e usuários do CAPS Paulo da Portela, com direção de Roma Miranda. Após a exibição, ocorreu debate com a participação de Larissa França e Eloá Machado, que abordaram os processos de criação do filme, a invisibilização das pessoas em situação de uso problemático de substâncias e os desafios e possibilidades da produção cultural no campo da saúde mental.



A programação do terceiro dia teve início com a peça O Eu Aprisionado, também do grupo Loucos por Teatro. Em seguida, foi realizada a mesa “25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica Brasileira: conquistas, impasses e perspectivas pelo viés clínico-assistencial”, com participação do Psicanalista Fernando Tenório, de Iolanda Machado do coletivo Mulheres cuidadoras NUPPSAM/IPUB/UFRJ e de Rogéria Barbosa, artista e usuária da RAPS- RJ.


Durante a mesa, Fernando Tenório apresentou um panorama da trajetória da Reforma Psiquiátrica Brasileira, destacando o papel dos movimentos sociais na construção da Lei nº 10.216/2001. Segundo ele, a legislação é resultado de décadas de mobilização de trabalhadores da saúde mental, usuários e familiares, que tensionaram o modelo manicomial e defenderam novas formas de cuidado. O projeto de lei, apresentado pelo então deputado Paulo Delgado em 1989, levou 12 anos até ser aprovado no Congresso Nacional.
Tenório também ressaltou a contribuição do Instituto de Psiquiatria da UFRJ nesse processo, tanto na formulação teórica quanto na implementação de práticas substitutivas ao modelo hospitalocêntrico. Nomes como João Ferreira Filho, Pedro Gabriel Delgado e Paula Cerqueira foram lembrados como parte de uma geração que ajudou a consolidar as bases da política de saúde mental no país.
Ao abordar o cenário atual, os participantes da mesa destacaram que, embora os avanços sejam inegáveis, em especial no que diz respeito à desinstitucionalização e à criação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), ainda há entraves importantes para a consolidação da Reforma Psiquiátrica no cotidiano dos serviços.


Um dos pontos levantados pela mesa foi o risco de padronização do cuidado. Apesar da ampliação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ainda há dificuldades na construção de projetos terapêuticos individualizados. Iolanda Machado destacou a importância de ampliar a participação das famílias, sendo fundamental que os serviços mantenham canais de escuta com os familiares, entendendo-os como protagonistas do cuidado.
Outro desafio apontado foi a diversificação das estratégias de atenção em saúde mental. Hoje, a rede está fortemente concentrada nos CAPS e nas unidades de atenção primária, enquanto a rede ambulatorial de média complexidade encontra-se precarizada. Além disso, a oferta de centros de convivência e iniciativas de geração de renda, que poderiam funcionar como porta de saída dos CAPS, ampliando a inclusão social dos usuários no território, ainda é muito limitada.
As condições de trabalho na rede pública também foram alvo de preocupação. A precarização dos vínculos, associada à terceirização por meio de organizações sociais, tem gerado sobrecarga, adoecimento e alta rotatividade entre os profissionais. Para os debatedores, esse cenário impacta diretamente a continuidade e a qualidade do cuidado oferecido.

No quarto e último dia, a mesa “25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica Brasileira: conquistas, impasses e perspectivas pelo viés político-cultural” trouxe ao centro do debate o papel da arte na produção de cuidado em saúde mental. Participaram da conversa o Deputado Estadual Flávio Serafini, a pesquisadora Ariadna Patrícia Alvarez e o artista e produtor cultural Adilson Tiamo.
As falas destacaram a centralidade da arte como ferramenta de expressão, elaboração e construção de vínculos, em uma tradição que remonta às experiências de Nise da Silveira. Também foram discutidas estratégias para o fortalecimento de políticas públicas voltadas aos Centros de Convivência e à ampliação do acesso de usuários da saúde mental aos circuitos de produção cultural.


Um dos pontos enfatizados foi a necessidade de criar condições concretas para que esses artistas possam não apenas produzir, mas também viver de sua arte, como salientou Adilson:
“A arte foi fundamental para lidar com o sofrimento psíquico em minha vida. Mas há uma distância muito grande entre o bem estar em criar e a possibilidade de viver da arte”.
Entre as propostas levantadas, destacaram-se a criação de editais específicos e o desenvolvimento de redes de apoio que considerem as particularidades e desafios enfrentados por esse público. Também foi sugerido que o IPUB possa organizar um grupo de trabalho envolvendo usuários e trabalhadores de saúde mental juntamente com fazedores de cultura para criar uma rede de capacitação e suporte para o desenvolvimento de ações culturais.
A inspiração de Qorpo Santo
Durante o debate, o artista e produtor cultural Adilson Tiamo apresentou uma poesia autoral que traduz, em primeira pessoa, a experiência da luta por liberdade e o papel da arte no cuidado em saúde mental:
São 25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica
São 25 anos de muitas lutas
Amor me escuta, Liberdade oculta
Eu quero é viver.
Quem sou eu? Eu sou genial
Faço parte da história, sou colossal
Faço parte da reinauguração do teatro
Qorpo Santo, eu sou imortal.
Nesses 25 anos, levantei poeira
Eu sou Adilson Tiamo Nogueira
No Pinel, lugar de loucura
Amor e amargura de pé no chão
Lugar de clareza, com sua beleza
E escuridão.
Lugar de folia, tristeza e alegria na multidão
Descolonizar é abrir o portão
Com muito prazer no meu coração
Abrir o portão, já faz 25 anos
É ajudar a sobreviver com liberdade
Como um pássaro fora da gaiola
Viva a liberdade.
Amor, me escuta!
Para viver precisamos de três coisas:
saúde,
liberdade
e cultura.
O evento foi encerrado com um baile promovido pelos Cancioneiros do IPUB, celebrando, em clima festivo, o encontro entre arte, convivência e cuidado em saúde mental.



A reinauguração do Teatro Qorpo Santo reafirma o compromisso do IPUB com a construção de espaços que integrem cuidado, cultura e cidadania. Mais do que a reabertura de um equipamento cultural, trata-se da reativação de um território vivo de encontros, experimentação e resistência, capaz de nos auxiliar a imaginar outros mundos possíveis.
O Teatro Qorpo Santo está de volta!
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